Monday, July 16, 2007

ALGUMAS PESSOAS - poema da Anita dedicado à tia Betty

Algumas pessoas fazem parte das nossas vidas;
Desde que nascemos,
Entram nas nossas vidas mas rapidamente se vão.

Ficam nas nossas memórias sempre a festejar;
Levam as nossas almas com aquele sorriso
e aqueles olhos verdes e grandes sempre a brilhar.

Algumas pessoas fazem o céu ficar mais bonito
para os seus filhos admirar,
por pouco tempo elas permaneceram em nossas vidas,
mas nunca nos deixarão.

Algumas pessoas despertam os nossos sentimentos com
pequenos toques de bondade e compreensão;
As suas dores ficam gravadas na palma das minhas mãos
e as suas gargalhadas deixam pegadas no meu coração.

Algumas pessoas jamais nos deixarão!

***

Não sabia o que escrever para constar das memórias da minha tia. Vamos dar forma a um livro com tudo de lindo que foi escrito, associado a um álbum com todas as fotos que estamos a tentar recolher. Tinha tanto para contar, mas as palavras não me saíam, não fluíam, acho que é normal em situações onde a emoção está presente. Queria-vos contar desde quando tudo começou, quando o fim começou... Com medo e esperança sempre a acompanhei em toda a sua luta e toda a sua dor. Este Domingo, quando conduzia com o Joshua ao meu lado, ele disse-me para notar como o céu estava tão lindo, e estava, com cores de roxo e rosa. O Joshua disse-me, então, que o céu estava lindo porque a mãe dele está lá, lá …no céu!
Lembro-me, com muita dor mas muitas vezes também com alegria, de tudo o que passámos, desde as imensas fofocas como a dor desta doença que te levou. Todas as vezes que íamos ao hospital, eram sempre más noticias, uma única vez quisemos acreditar, mas não estavas curada da doença mas sim a morrer, e nós sem termos a noção da gravidade da situação. Mesmo assim rias-te. As tuas gargalhadas só nos davam vontade de chorar, mas, sempre fortes, não deitámos lágrimas para não te assustar. No entanto, hoje não consigo deixar de chorar. Sempre que querias fazer planos do teu funeral, deixávamos-te falar. Sempre que entravas em panico com dores afundavas as tuas unhas nas palmas das minhas mãos, e dizias-me: "os meus filhos Anita! os meus filhos!"
Tenho orgulho de ti minha tia, pois com a tua simplicidade deixaste-nos uma herança de bondade que nunca ninguém nos vai tirar nem apagar. Tenho orgulho dos teus filhos, em que a beleza exterior não esconde a beleza dos seus íntimos. Mostraste-me que mesmo com dor se pode amar; amaste com perdição o teu marido e eu nunca compreendi, não sei o que é amar assim, amei-te sim a ti minha querida tia e hoje, após unicamente uma semana de te ter incinerado, tenho já um acumular de coisas que preciso de te contar. Este poema atrapalhado sei que a muita gente vai fazer chorar. Não sou de poemas, mas outro poema escrevi quando tinha onze anos e que a minha mãe mandou emoldurar. Mas com este poema quero-vos mostrar a minha dor, as tuas melhores amigas são agora também para mim as minhas melhores amigas, é com elas que falo quando estou quase a desesperar, mas era contigo que eu queria falar. Se nos tivesses visto, ias também pôr-te a chorar. Todos os discursos, todas as flores, todo o nosso amor, sei que não ias gostar de ver todas as pessoas que tanto amas a sofrer, mais de duzentas pessoas todas a chorar. Mas já nem as soube contar. Gostava de ver quem irias consolar. Sei que agora nos abraças a todos, mas não consigo mais presenciar o olhar triste e sofrido da Roxeanne, o desespero da Susana, que constantemente sonha contigo como se algo lhe quisesses contar, as lágrimas e olheiras do Joshua, o sorriso do tio Celio, que é como a capa deste livro que muita tristeza tem para contar.
Querida Tia Betty, para sempre te vou amar
Anita

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